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Territórios de encantamentos

Territórios de encantamentos

“Ay cariño, ay mi vida, nunca pero nunca me abandones, cariñito…”

A noite em Acari começou assim: em espanhol, em suspiro, em lembrança. Não havia quem não sentisse que aquela inauguração do Memorial Titina Medeiros era menos um evento e mais um reencontro, desses que parecem escritos muito antes de acontecer.

Havia no ar uma força que nos faz encontrar, como se cada passo dado até ali fosse guiado por uma delicada coreografia do destino.

Acari, com suas serras abraçando a cidade como braços antigos, recebia mais uma vez seus filhos e filhas, seus amigos e amigas. E como não pensar no Gargalheiras? Suas águas turvas, nunca opacas, carregam histórias, memórias, segredos. Como a própria Titina: profunda, intensa, viva. Abraçando-nos também!

Chegar ali era como entrar em casa. Ou melhor: em muitas casas ao mesmo tempo. Porque Titina era isso: casa.

E naquele memorial recém-inaugurado, havia um pouco da “Casa Grande” de José Bezerra Gomes, havia o Seridó pulsando nas paredes, havia chão, havia raiz. Uma merecedora filha dos sóis, desses que queimam e iluminam, agora transformada em permanência, como escultura anfitriã feita de ferro vazado pelo artista Guaraci Gabriel.

E a constância… ah, a constância.

Nome bonito, nome exato. Nome do show, nome do que ficou. As vozes de Ângela Castro, Giovanna Araújo, Michelle Ferret, Tiquinha Rodrigues, Valéria Oliveira e de outras mulheres, amigas, se entrelaçavam numa irmandade rara, na força de irmandade que emanava delas, nelas e para elas. Titina estava entre todas!

Elas cantavam as dores e delícias latinas que Titina tanto amava, elas cantavam… aquelas mulheres coloridas e iluminadas, como aquelas que descrevo num conto escrito por mim, intitulado “No horizonte tem chuva fiando”…

 “Bésame/ Bésame mucho/ Como si fuera esta noche/ La última vez…

Bésame/ Bésame mucho/ Que tengo miedo a perderte/ Perderte después…” ecoava como um pedido coletivo de permanência. E entre uma lágrima e outra, outra música dizia: “Que sea lo que sea…”

E era. Era tudo. Era riso, era choro, era música, era coro…

Uma das artes de Titina era fazer chorar e, no segundo seguinte, fazer rir. E fazer cantar e dançar… Ela entendia que a vida é esse fluxo do mar, essa marola de açude, indo e vindo, sem pedir licença.

No meio da multidão, encontros: Dani Herrera, menino que vi pequeno, agora homem feito, me abraçando com aquele afeto que não se explica, só se reconhece; João Júnior, Marcílio Amorim, João Marcelino, Dodora Cardoso… nomes que são histórias, histórias que são gente. Titina, mesmo ausente, seguia promovendo encontros. Era sua especialidade.

E ali, entre abraços, risos e olhos marejados, alguém lembrava das frases que ela gostava, ou que poderiam ter sido suas, como ecos da poesia parafraseada de Michelle Ferret: “em vez de açúcar, adoce a vida com amor”… que assim seja!

E assim era.

No memorial, o mosaico de Ivan Simplício brilhava como um gesto eterno. Pedras do Gargalheiras transformadas em anjo. Não qualquer anjo, o anjo que Titina encarnava nas festas, ao coroar Nossa Senhora da Guia. Havia algo de sagrado naquele gesto artístico, como se cada pedra dissesse: ela ainda está aqui. Como estava em cada figurino, em cada fotografia, em cada elemento do Memorial.

E estava.

Na música, na memória, na constância.

Naquele instante em que aquelas mulheres começaram a cantar escancaradamente o refrão de Alvejante…  “Lavei a roupa de cama, mas o infeliz do teu cheiro tá entranhado em mim / Dei geral na casa toda e do coração esqueci / Fui no supermercado comprar alvejante que o meu acabou / Mas o material de limpeza limpa sujeira, não limpa amor” e todas as pessoas na plateia, todas!, responderam em coro, rindo, chorando, vivendo.

O que foi Titina? O que é Titina? Quem somos nós? Passageiros…  Titina nunca foi ausência. É presença expandida. É a força que nos faz experenciar toda sorte de encontros: sobretudo os melhores, os mais afetivos.

E naquela noite, Acari não era só cidade. Era Território de encantamentos e de encontros fraternos e familiares. Era casa.  Era o “Seridó – Casa Grande”, descrito por José Bezerra Gomes neste poema tão curto, mais tão enorme…

Era Casa de Zoé.

Era e é a eterna casa de Titina Medeiros.

“Ay cariño, ay mi vida, nunca pero nunca me abandones, cariñito…”

Fonte: saibamais.jor.br

Bia Crispim

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