Curioso que sou pela diversidade de comportamentos e loucuras, aproveito as redes sociais para me manter informado sobre tendências, neuras e bizarrices do momento. É inevitável que eu esteja sendo bombardeado tanto por posturas masculinas tóxicas como pela reação a esses movimentos.
Volta e meia aparece para mim homens com conselhos de comportamento, seja para “ser homem de verdade”, seja para “pegar a mulherada”. O curioso é que esses conselhos geralmente vem com críticas rigorosas à estética das mulheres ou, pior, ao comportamento feminino, criando um padrão fixo (e moralista) de atitudes reprováveis.
Chamou minha atenção um dia desses um cidadão, estilo “Calvo do Campari”, recomendando com seriedade que homens decentes (sic) tivessem cuidado com mulheres com tatuagem de borboleta. “Vocês sabem o que isso significa, não é?”, questionou a criatura.
Eu sabia o que o red pill queria dizer, mas lá fui eu pesquisar. Que a tatuagem de borboleta em mulheres, um dos designs mais populares e atemporais do mundo da arte corporal, simboliza a transformação, a metamorfose, a liberdade e o recomeço. O que faz sentido histórica e simbolicamente, inclusive representando externamente o que muitas mulheres passam em relação à saída de relações tóxicas, casamentos frustrados, situações de violência etc.
Mas há tempos os red pills veem na tatuagem de borboleta outras coisas. Para esses homens frustrados, mulheres tatuadas tendem a ser mais promíscuas e menos confiáveis, e a tatuagem de borboleta indicaria disponibilidade sexual, o que, evidentemente, a torna um perigo para homens conservadores.
Achei simbólico que o homem tóxico declare guerra a um símbolo de liberdade e voo. Segundo Gabriela Augusto, consultora, palestrante e fundadora da Transcendemos, “se trata de uma vigilância moral sob o corpo feminino, o movimento que cria códigos para julgar e controlar mulheres”,
Gabriela lembrou o fato recente que uma jovem foi atacada nas redes só porque tinha uma tatuagem de borboleta. O vídeo dela, que era só uma trend de supermercado, viralizou com milhões de views e virou alvo de hate. Tudo porque, segundo um influenciador, borboleta seria “sinal de mulher problemática”. O ataque foi virtual. Mas red pills podem transformar o ódio virtual em real, como registrado na série de sucesso da Netflix “Adolescência”, onde um rapaz de 14 anos que digitava misoginia nas redes acabou assassinando uma colega de classe que o desprezou.
A tatuagem é um símbolo que denotaria um comportamento, tal como a minissaia ou cabelo curto feminino. Gabriela registra que “no fim, o problema nunca foi a tatuagem, foi o medo da liberdade feminina. Se o corpo de uma mulher ainda causa tanto incômodo, é sinal de que a gente ainda tem muito pra mudar. Tais simbolismos — desde o comprimento de uma saia ou o uso de calças, até a tatuagem — indicam uma quebra de expectativa de uma sociedade machista e patriarcal. Quando mulheres se apropriam de elementos originalmente destinados a homens, a hierarquia é contrariada”.
Pesquisei mais vídeos sobre o tema. O mesmo perfil de influenciadores pregando masculinidade tóxica fazendo listas de comportamentos que os homens “sérios” não podem aceitar de uma mulher: que fume, que fale alto, que não cuide das unhas e da pele, que ria jogando a cabeça para trás, que trabalhe e ganhe salário maior que o homem, que saia com as amigas, que tenha tido vida sexual, que beba. E que não faça tatuagem, muito menos de borboleta.
No fim das contas não querem mulheres de verdade, querem uma idealização, uma utopia machista, uma boneca inflável. Ou talvez aquilo que o saudoso Ricardo Boechat mandou Silas Malafaia procurar. Seria até engraçado se não fosse perigoso e custasse o bem estar e a vida de tantas mulheres.
Fonte: saibamais.jor.br





