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mês de festa, resistência e devoção

Maio, mês dos ciganos. Um povo que segue tendo sua história silenciada ou distorcida pelas narrativas populares, fruto de um imaginário coletivo que insiste em nos estereotipar. São inúmeras referências negativas que perpassam desde a visão popular da bailarina hiperssexualizada e oraculista trapaceira até o cigano ladrão e preguiçoso, como já nos adverte o pesquisador e cigano Rom, Ian Hancock. A indústria cultural favorece estas imagens de controle: em novelas e programas de auditório, seguem representando os povos ciganos de maneira pejorativa, desvalorizando o caráter plural de nossas identidades e fixando-nos em um lugar simplista do “exótico” ou criminoso.

Um povo historicamente perseguido e desumanizado, sem direito à educação ou a atendimentos dignos na área da saúde em todo o mundo. Pessoas que tiveram suas casas e tendas derrubadas, sofreram com falsas acusações policiais e, até hoje, sofrem com a desinformação e o preconceito dos não ciganos. Somos muitos, somos diversos, mas sempre referenciados de forma genérica como “ciganos”, sendo destituídos de nossas culturas e tradições particulares de cada grupo étnico e clã.

Além disso, com o crescente número de adeptos à religião da Jurema Sagrada, tem se tornado cada vez mais comum o número de pessoas que se caracterizam com acessórios e vestimentas ciganas e performam nossa existência em alguns terreiros. O mesmo cenário acontece com cartomantes e oraculistas que se autointitulam ciganas. Hoje, muitos ateliês se ocupam em confeccionar nossos vestidos e saias, que são fascinantes, mas, como afirma a romi Vivian, “dor coletiva não é performance espiritual. Sangue não é tendência.”

Muitos se referem ao povo cigano como um povo desapegado e livre, mas não assumem a responsabilidade sobre os seus antepassados que nos perseguiram e nos impediram de fixar residência. É fácil romantizar uma cultura quando não se vê o sangue derramado em mais de 500 anos de escravidão. Eu, mais que ninguém, sempre que falo sobre as culturas dos povos que percorrem minhas veias, busco “falar de nós vencendo”, como sugere nosso grande filósofo quilombola, Nêgo Bispo. Mas, diante de tanta fantasia que cerca a realidade e de pessoas assumindo o lugar de fala de pessoas que sofreram e sofrem, até os dias de hoje, com o descrédito e a desconfiança, não dá pra ficar em silêncio e não relembrar um passado que a fantasia coletiva insiste em enterrar.

Precisamos lembrar dos nossos primos Rom e Sinti que morreram nos campos de Auschwitz-Birkenau, os chamados “campos familiares ciganos”. Vocês sabem disso ou a comoção de vocês é seletiva? Felizmente, existe algo que nunca conseguiram matar: a nossa força. E, em nome de todos os Rom e Sinti que sofreram com o holocausto cigano, o dia 16 de maio de 1944 ficou conhecido como o Dia Internacional da Resistência Roma e Sinti.

É por esta razão que, no dia 16 e no dia 24 de maioDia de Santa Sara Kali, a padroeira de muitos ciganos que vivem em países como França e Brasil —, nos ajoelhamos, acendemos velas e elevamos nosso coração em prece, pedindo dias de paz para o nosso povo. São dias de introspecção, silêncio, respeito e oração. Graças a Ela e, principalmente, a Kristesco, nos ajoelhamos para depois seguirmos firmes, de pé.

No Brasil, foram muitos os caminhos já percorridos e, sem dúvida, obtivemos avanços significativos para a nossa comunidade Romani, como o decreto do Dia Nacional dos Povos Ciganos (2006) e o Plano Nacional de Políticas para os Povos Ciganos (2024), visando combater o preconceito e a discriminação. Há ainda o Estatuto dos Povos Ciganos, que se trata de um projeto de lei que visa garantir a inclusão social, política e econômica dos povos ciganos, combatendo a discriminação e a intolerância étnica, além de proteger nossos direitos.

Aqui na cidade de Natal, não podemos esquecer dos esforços incansáveis do nosso Kaku e ciganólogo, Zarco Fernandes, que, apesar dos anos, das portas fechadas e da falta de apoio de lideranças políticas, segue sendo um dos maiores pesquisadores do Brasil, mantendo viva a nossa história e repassando-a para nós em grupos de estudo e discussão. Zarco é nossa referência de luta e resiliência. É a pessoa que nos inspira e nos dá forças para seguir pelas estradas da vida.

Outra pessoa importante é a romi Luna Yasmina, que há anos ensina a dança e a cultura cigana no Studio Alma Cigana com muito amor e dedicação, apesar das intempéries da vida. Nosso coletivo de dança é formado por ciganas e não ciganas que amam a cultura do povo Romani, mas também estudam sobre um passado doloroso e cruel. Cada gesto, cada balançar de saias ao vento é mais que uma apresentação: é um movimento poderoso de mulheres que buscam manter vivo nosso legado.

Não somos nada sem nossos mais velhos. Não somos nada sozinhas. Somos fortes e resistentes porque sempre estivemos juntos, e desistir nunca foi uma opção. Dançamos, rezamos e celebramos a vida de quem deu a vida por nós. Mantchê!

Ana Paula Campos (Lua Callin)- Indígena Potyguara, Cigana Calon, mãe atípica, candomblecista e juremeira, Professora da rede pública, escritora, pesquisadora orgânica, bailarina e cartomante.

Fonte: saibamais.jor.br

Ana Paula Campos

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