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o filme de Bolsonaro e a propaganda da censura

Por Rômulo Sckaff

Há filmes que nascem para serem vistos. Outros, talvez, nasçam para não circular. O caso de Dark Horse, cinebiografia internacional sobre Jair Bolsonaro, parece caminhar perigosamente nessa segunda direção. Não porque o filme seja necessariamente relevante como cinema. Não porque seu roteiro prometa grande densidade histórica ou vá enfrentar, com honestidade, as contradições políticas do personagem retratado. Mas porque estamos diante de algo que ultrapassa a tela: uma operação simbólica, política e propagandística.

Segundo a agência Reuters, o filme teria recebido uma promessa de financiamento de US$ 24 milhões, valor que o colocaria entre as produções mais caras já relacionadas ao cinema brasileiro. A própria reportagem compara esse montante com orçamentos muito menores de filmes brasileiros de grande repercussão: O Agente Secreto, estimado em US$ 5 milhões; Ainda Estou Aqui, em US$ 9 milhões; e Bacurau, citado por Kleber Mendonça Filho como uma produção de cerca de US$ 1,5 milhão.

Ou seja: antes mesmo de qualquer discussão estética, já existe uma notícia. Um filme político sobre uma figura central da extrema direita brasileira movimentando cifras muito superiores à média do cinema nacional já seria, por si só, matéria de interesse público.

Mas o ponto mais grave talvez esteja em outro lugar.

Até agora, segundo a CNN Brasil, a Agência Nacional do Cinema afirmou que não consta pedido de registro da obra em sua base de dados. A agência também declarou não dispor de informações sobre produção, financiamento ou detalhes técnicos do filme.

E aqui é preciso separar as coisas. Não se trata de censura prévia. Não se trata, ao menos até onde os fatos públicos indicam, de uma proibição por conteúdo político. Trata-se de uma regra aplicada ao setor audiovisual. A Ancine informa que, em regra, toda obra audiovisual não publicitária precisa ser registrada antes da exibição ou comercialização em mercado regulado. Para obras brasileiras, o caminho passa por CPB e CRT; para obras estrangeiras, por ROE e CRT. O CRT é justamente o registro que permite a exibição e comercialização regular da obra no território nacional.

É como acontece em outros setores regulados. Um remédio não entra no mercado sem responsável técnico, registro e controle sanitário. Uma obra de engenharia exige engenheiro, ART, projeto e responsabilidade profissional. Um restaurante precisa de licença sanitária. Uma escola precisa de autorização de funcionamento. Um produto audiovisual que pretende circular comercialmente também precisa cumprir regras.

A lei não desaparece porque o personagem do filme se considera perseguido.

E é exatamente aí que pode estar o pulo do gato.

A grande propaganda talvez não seja o filme. Talvez seja a sua eventual não circulação. Talvez o objetivo mais eficiente não seja levar multidões ao cinema, mas produzir a manchete perfeita para o “tiozão do zap”: “Filme de Bolsonaro é proibido no Brasil.”

Não importa, para essa engrenagem, se a obra deixou de cumprir exigências legais. Não importa se não apresentou registro. Não importa se a agência reguladora apenas aplicou a mesma regra que vale para qualquer obra audiovisual. A narrativa já estaria pronta: “estão nos censurando”.

É uma estratégia conhecida. Joseph Goebbels compreendia como poucos o poder da simplificação, da repetição e da vitimização política. A propaganda autoritária não precisa convencer pelo argumento; ela precisa organizar afetos. Precisa produzir inimigos. Precisa transformar regra em perseguição, fiscalização em censura, ilegalidade em martírio.

Por isso, um possível subtítulo para essa história seria: Primavera para Goebbels.

A referência a The Producers — conhecido no Brasil como Primavera para Hitler — não é casual. No clássico satírico de Mel Brooks, produtores tentam criar uma peça tão absurda e grotesca que ela deveria fracassar. Mas o escândalo vira espetáculo. A obra pensada para dar errado acaba encontrando sua própria lógica de sucesso. Aqui, o mecanismo pode ser parecido: um filme que talvez renda mais politicamente como denúncia de censura do que como cinema.

E nesse ponto a Ancine se vê diante de uma armadilha delicada. Se exige o cumprimento da legislação, será acusada de censura. Se ignora as regras, autoriza uma exceção política. Se multa, alimenta a narrativa de perseguição. Se não multa, desmoraliza o sistema regulatório que sustenta o audiovisual brasileiro.

É uma bomba simbólica plantada no terreno da institucionalidade.

O cinema brasileiro sabe bem o que significa lutar por financiamento, por registro, por distribuição, por sala, por público. Sabe o que significa produzir com pouco, resistir à precarização e ainda ser tratado como inimigo por setores que passaram anos atacando a cultura. Agora surge uma superprodução política, internacionalizada, cercada de suspeitas e cifras milionárias, querendo talvez transformar obrigação legal em palanque.

O problema, portanto, não é apenas se o filme é bom ou ruim. Não é apenas se a narrativa é honesta ou caricatural. Não é apenas se Bolsonaro será retratado como mito, mártir ou herói improvável.

O problema é que a obra pode estar cumprindo sua função antes mesmo de estrear.

Um filme inteiro, milhões de dólares e uma operação política talvez voltada a um único objetivo: não disputar a história, mas produzir a palavra mágica da extrema direita contemporânea — censura.

E quando a palavra circula sozinha, destacada do fato, ela vira munição. Vira corrente de WhatsApp. Vira manchete sem leitura. Vira combustível para quem se informa por título, indignação e ressentimento.

No fim, talvez Dark Horse não seja uma cinebiografia. Talvez seja uma peça de campanha. Talvez seja menos cinema e mais dispositivo. Menos narrativa e mais armadilha. Menos filme e mais propaganda.

Ainda há pano para manga.

Aguardemos.

Fonte: saibamais.jor.br

Da Redação

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