O Rio Grande do Norte contabilizou 148 casos confirmados de intoxicação por ciguatera no primeiro semestre de 2026, segundo a Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap). O número supera em mais de 60% os 88 registros de todo o ano de 2025 e levou o órgão a intensificar as ações de vigilância epidemiológica, ampliar a capacitação dos profissionais de saúde e fortalecer o monitoramento da doença em parceria com universidades e instituições ligadas ao setor pesqueiro.
De acordo com a Sesap, o aumento das notificações está relacionado, principalmente, à inclusão da ciguatera na lista estadual de doenças de notificação compulsória, medida que exige o registro de todos os casos suspeitos pelos serviços de saúde.
“Isso significa que todos os casos suspeitos precisam ser notificados pelos profissionais de saúde. Esse, para mim, talvez seja hoje o principal motivo para justificar esse aumento”, afirmou a coordenadora de Vigilância em Saúde da Sesap, Diana Rego.
A ciguatera passou a ser monitorada oficialmente no Rio Grande do Norte em 2022, quando foram registrados dez casos. Desde então, o estado acumula 259 notificações, distribuídas em 46 surtos, com dois óbitos registrados no período. Segundo a Vigilância em Saúde, a série histórica ainda é considerada curta para conclusões mais amplas sobre o comportamento da doença.
A intoxicação é causada pela ciguatoxina, substância produzida por microalgas marinhas que se acumula ao longo da cadeia alimentar, principalmente em peixes de grande porte. No Rio Grande do Norte, a toxina foi identificada com maior frequência nas seguintes espécies:
- Bicuda (barracuda): 51 casos (45,13%);
- Arabaiana: 28 casos;
- Dourado: 13 casos;
- Cioba: 5 casos;
- Pescada-branca: 4 casos;
- Galo-do-alto: 4 casos;
- Pargo: 3 casos;
- Sirigado (robalo): 2 casos.
Os sintomas incluem náuseas, vômitos, diarreia, dor de cabeça, coceira e alterações neurológicas, manifestações que podem ser confundidas com outras intoxicações alimentares.
Por esse motivo, a Sesap orienta que pessoas que apresentem sintomas gastrointestinais ou neurológicos após o consumo de peixe marinho procurem atendimento médico para investigação e notificação do caso.
“É importante que os profissionais de saúde saibam que existe a ciguatera, caso as pessoas cheguem às unidades com esses sintomas. Muitas vezes eles são inespecíficos e podem ser confundidos com outras intoxicações”, explicou Diana Rego.
Estudos buscam entender avanço da doença
Além das ações de vigilância, a Secretaria promove estudos para ampliar o conhecimento sobre a presença da ciguatoxina no litoral potiguar. Recentemente, pesquisadores das áreas de Biologia Marinha e Oceanografia participaram de reuniões com representantes da Secretaria de Agricultura e Pesca para discutir fatores que possam explicar o comportamento da doença na costa do estado.
Segundo a coordenadora da Vigilância em Saúde, ainda existem muitas lacunas científicas sobre o tema.
“Estamos analisando todas as informações e buscando entender esse cenário para construir a melhor política pública de proteção à população. Ainda é uma doença muito recente para fazermos afirmações definitivas”.
Casos se concentram no primeiro semestre
Os registros realizados desde 2022 mostram que a maior parte dos casos costuma ocorrer nos primeiros meses do ano. Embora não exista comprovação científica para essa concentração, a Sesap investiga fatores ambientais e climáticos que possam influenciar esse comportamento.
Entre as hipóteses analisadas estão:
- aumento da temperatura do mar;
- alterações na biodiversidade marinha;
- maior circulação de embarcações durante o veraneio;
- crescimento do consumo de pescado nesse período.
Paralelamente às investigações, a Sesap mantém ações educativas junto às comunidades pesqueiras e ao setor produtivo. A principal recomendação é evitar o consumo das espécies nas quais já houve confirmação laboratorial da presença da ciguatoxina.
A secretaria ressalta que não é possível identificar visualmente um peixe contaminado e alerta que a toxina não é eliminada durante o preparo dos alimentos.
“Ela é uma toxina termorresistente. Mesmo com o peixe cozido ou frito, continua presente. Por isso, nossa nota técnica recomenda evitar o consumo dessas espécies, principalmente da bicuda ou barracuda”.
Fonte: O Poti
