Cresci com minhas tias repetindo o ditado popular que tudo demais é muito. Com a variante “a diferença do remédio para o veneno está na dose”. Controlar o exagero é uma ideia inclusive bíblica, além de um dos pilares do bom senso. No mundo atual esse tipo de filosofia e postura parece uma utopia, já que o excesso é a tônica das redes sociais e do comportamento coletivo digital. A internet é um campo fértil e fácil para exageros, já que a virtualidade oferece uma proteção e liberdade que a realidade, o contato direto não permitiriam.
O preceito do “tudo demais é muito” serve para coisas naturais, como alimentos. Ovos são necessários para o organismo. Mas se comermos 30 ovos por dia, vamos desregula-lo. Idem em relação à vitamina C, presente em frutas cítricas. Pastel de carne é das melhores coisas inventadas pelo ser humano. Mas invente comer oito, para ver a dor de barriga que vai sentir.
No campo dos alimentos artificiais, digamos, o excesso pode sair ainda mais caro. Ultraprocessados, como salsichas, consumidos em excesso podem realmente causar doenças graves. Macarrão instântaneo (o bom e velho miojo) se em grandes quantidades pode causar problemas renais e doenças cardiovasculares. Refrigerante em excesso pode causar diabetes. existe até um elogiado documentário (que fiz meus filhos assistirem quando crianças), “Super size me”, que mostra os efeitos nocivos na saúde de um homem que decide passar um mês se alimentando apenas de produtos do Mc Donald’s.
Portanto, se as redes sociais já eram um festival de excessos quando norteadas apenas pela, digamos, inteligência natural, de cada um de nós, internautas, agora com o advento da Inteligência Artificial como algo cotidiano e corriqueiro, a coisa degringolou de vez. Ferramentas de IA vieram para facilitar a nossa vida e explorar possibilidades de trabalho, mas para boa parte dos usuários de redes sociais, tornou-se uma ferramenta de diversão com, péssima notícia, manipulação de realidade.
Desde que as redes criaram (como protótipos da IA) os filtros que transformaram nossas fotos, comecei a ficar preocupado, como externei em diversos textos. Homens da minha idade, cinquentões, postando fotos de perfil como boys (para usar da terminologia potiguar) atléticos e mulheres adultas com imagens delas como aristocratas francesas, rainhas do Egito etc. Achei cafona e infantil desde sempre.
Mas a IA como ferramenta mais elaborada tornou tudo pior. Hoje existem centenas, milhares de imagens que simplesmente não existem como realidade. 100% artificiais. Que os internautas postam, digamos, como se fossem reais ou, pelo menos, uma brincadeira “que poderia ser verdade”.Exemplo disso são os muitos amigos e amigas que postam fotos ao lado de celebridades (de Ayrton Senna a Lula, de Elis Regina a Amy Winehouse). Ou de gente que usa a IA para parecer mais jovem, para alterar o lugar onde mora, para se colocar em um lugar onde não está. Enfim, o exagero no uso da Inteligência Artificial como manipulação deliberada da realidade.
Mesmo onde a IA funcionaria como ferramenta de trabalho para redução de custos e tempo, percebo um exagero desnecessário. Nesta semana, detectei pizzarias e bares de Natal que curto divulgando seus espaços e serviços com imagens artificiais que simplesmente não correspondem a eles (e sei disso porque os frequento). Quando na realidade vídeos “naturais” das comidas e clientes satisfeitos nas mesas fariam mais efeito do que a IA desnecessária. Também há exagero no uso dessas ferramentas em “vídeos” explicativos de atores e atrizes em idades diferentes. O uso do IA tornaria apenas mais glamuroso o que poderia ser feito com uma edição básica dos filmes do artista ou sobreposição de fotos.
Mas minha ranzinzice não é apenas idade e temperamento. Tem como premissa uma reflexão: e quando não distinguirmos mais o que for verdade e o que for artificial? Aquele vídeo do político falando, afinal, é real ou IA? Aquele amigo que postou foto antiga com Caetano Veloso realmente encontrou o gênio baiano em Natal ou simplesmente recorreu ao Gemini ou Chat GPT?
Tenho medo de um mundo onde qualquer imagem, voz, vídeo ou informação pode ser tão facilmente manipulada. Com a IA podemos colocar, de maneira realista, o papa numa suruba ou nosso artista preferido jantando em nossa casa. Parece-me assustador. Apesar das tentativas de regulamentação, o cenário me parece irreversível.
Quando contei a um amigo querido que escrevia sobre IA, ele, leitor fiel e conhecedor de minhas idiossincrasias, soltou uma farpa: que seria um texto sobre a questão criticando os homens 50+ (que como quem me lê bem sabe, são alvos constantes de minhas críticas). Infelizmente, sim. “Coroas” tem uma relação de deslumbramento com as novas tecnologias disponíveis nas redes sociais e nos aparelhos celulares, de maneira que sempre caem mais facilmente em armadilhas virtuais, seja em golpes financeiros, seja em mecanismos de “rejuvenescimento”. Mas, faço um importante adendo: no uso descontrolado de IA não há distinções de gênero. Homens e mulheres exageram de igual maneira. A questão aqui é geracional. Meus filhos, por exemplo, na faixa dos 20, pouco ou nada recorrem à IA, idem em relação aos amigos deles. Esperar para ver o que vai acontecer nos próximos anos. Com preocupação e algum medo.
Fonte: saibamais.jor.br





