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UFRN integra discussão sobre repatriação de fósseis retirados ilegalmente do Brasil

A atuação de pesquisadores e instituições do Rio Grande do Norte tem ganhado destaque no debate sobre a repatriação de fósseis brasileiros levados ilegalmente ao exterior. A paleontóloga Aline Ghilardi, coordenadora do Laboratório de Dinossauros (DinoLab) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), está entre os nomes envolvidos nas discussões sobre o chamado “colonialismo científico”, prática marcada pela retirada de patrimônios naturais brasileiros para museus e coleções estrangeiras.

O tema voltou ao centro das atenções após a repatriação do fóssil do dinossauro Ubirajara jubatus, devolvido ao Brasil em 2023 depois de permanecer por décadas na Alemanha. O exemplar, encontrado na região da Bacia do Araripe, foi levado por pesquisadores estrangeiros nos anos 1990 e estava no Museu Estadual de História Natural Karlsruhe. Hoje, integra o acervo do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, no Ceará.

Segundo Aline Ghilardi, a mobilização popular nas redes sociais foi decisiva para pressionar o museu alemão a devolver o fóssil. “As redes do museu foram devastadas por comentários de brasileiros. Esse foi justamente o ponto de virada na história.”

Ela avalia que o caso evidenciou a lógica histórica de exploração científica de países do Sul Global. “A maior parte dos museus europeus está recheada com materiais de territórios que foram colônias ou que têm sido, até hoje, explorados numa lógica de assimetria de poder”, disse.

Pesquisas com participação da paleontóloga potiguar apontam a dimensão do problema. Um estudo publicado na revista científica Palaeontologia Electronica identificou que ao menos 490 fósseis de macroinvertebrados foram retirados irregularmente da Bacia do Araripe entre 1955 e 2025. Quase metade das publicações analisadas foi produzida exclusivamente por pesquisadores estrangeiros, sem participação de brasileiros.

Outro levantamento, publicado pela Royal Society Open Science, mostrou que 88% dos fósseis descritos em estudos sobre macrofósseis da região do Araripe entre 1990 e 2020 foram levados para museus estrangeiros e ainda não retornaram ao Brasil.

Além do caso do Ubirajara jubatus, outras iniciativas recentes de repatriação evidenciam o esforço brasileiro para recuperar patrimônios retirados ilegalmente do país. Em 2024, o Brasil conseguiu o retorno de um manto Tupinambá do século 17, que estava na Dinamarca, e, neste ano, outros 45 fósseis originais da Bacia do Araripe foram devolvidos pela Suíça. Também houve a restituição da aranha fóssil Cretapalpus vittari, que homenageia a cantora Pabllo Vittar e foi repatriada pelos Estados Unidos em 2021 após a Universidade do Kansas reconhecer a irregularidade da exportação. Os casos reforçam o debate sobre colonialismo científico.

Para a pesquisadora da UFRN, a saída ilegal desses materiais compromete diretamente a produção científica nacional. “Quando esses bons fósseis vão para fora, quem faz as grandes descobertas e recebe o prestígio acadêmico são os estrangeiros”, afirmou.

Além do Ubirajara, outras peças vêm sendo devolvidas ao Brasil nos últimos anos. Em fevereiro deste ano, 45 fósseis originais da Bacia do Araripe retornaram da Suíça. Já um acordo entre Brasil e Alemanha também prevê a repatriação do dinossauro Irritator challengeri, retirado ilegalmente do Ceará e mantido desde 1991 em um museu alemão.

De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, o Brasil mantém pelo menos 20 negociações internacionais para recuperar fósseis e patrimônios culturais espalhados em ao menos 14 países. Os Estados Unidos lideram o número de processos de devolução, seguidos por Alemanha e Reino Unido.

SAIBA MAIS: Brasil pode ter fóssil de dinossauro de volta; paleontóloga da UFRN liderou campanha

A campanha liderada do RN

O fóssil, encontrado na Bacia do Araripe, no Ceará, está sob guarda do Museu Estatal de História Natural de Stuttgart desde 1991. Considerado um dos exemplares mais importantes já retirados do Brasil, ele corresponde ao crânio de espinossaurídeo mais completo conhecido até hoje.

O caso teve um avanço diplomático em abril de 2026, durante visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Alemanha. Em declaração conjunta assinada em Hannover, os governos brasileiro e alemão registraram a disposição do Estado de Baden-Württemberg e do museu alemão em devolver o fóssil ao Brasil dentro de um acordo de cooperação científica.

Nas redes sociais, Aline comemorou o avanço e destacou a mobilização popular como peça-chave na pressão pela devolução do material. A campanha ganhou força após a repatriação do Ubirajara jubatus, também retirado do Araripe e devolvido pela Alemanha em 2023. No caso do Irritator, uma carta aberta reuniu centenas de assinaturas de especialistas, enquanto uma petição pública ultrapassou 34 mil apoios. Assine aqui.

O nome “Irritator” surgiu da irritação dos cientistas ao descobrirem que partes do fóssil haviam sido adulteradas para aumentar seu valor comercial. Já “challengeri” homenageia o personagem Professor Challenger, do livro O Mundo Perdido.

Embora o acordo represente um marco para a paleontologia brasileira, ainda não há data definida para o retorno do fóssil ao país nem confirmação sobre qual instituição ficará responsável pela guarda do material.

SAIBA MAIS: Ciência responsável: conheça o biotério da UFRN, referência em ética e pesquisa

Fonte: saibamais.jor.br

Gil Araújo

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