Uma equipe formada por estudantes do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) desenvolveu um aplicativo que busca facilitar o processo de doação de leite materno no Brasil. O projeto, chamado “Kamby”, foi criado por alunos do Campus Natal Central e conquistou o 1º lugar nacional na Olimpíada Brasileira de Tecnologia (OBT), com nota máxima, tornando a equipe Potiguaras a única representante potiguar premiada na competição.
Voltado para conectar mães doadoras, bancos de leite humano e equipes responsáveis pela coleta, o aplicativo nasceu a partir de experiências próximas vividas pelos próprios integrantes do grupo, que identificaram dificuldades recorrentes enfrentadas por mulheres interessadas em doar leite materno.
“A ideia surgiu porque algumas pessoas próximas da equipe tiveram contato com a realidade da doação de leite e perceberam como o processo ainda é pouco acessível e cheio de barreiras”, explica Clara Teodósio, integrante da Potiguaras. “A gente entendeu que era um tema extremamente importante socialmente, porque a doação de leite pode salvar a vida de recém-nascidos internados e em situação de vulnerabilidade.”
O nome do aplicativo também carrega uma dimensão simbólica e cultural. “Kamby” significa “leite” em Tupi-Guarani. Segundo a equipe, a escolha do nome buscou estabelecer uma conexão com elementos da cultura brasileira e reforçar a identidade do projeto.
Aplicativo pretende centralizar informações e agilizar coletas
Embora ainda esteja em fase de implementação, o Kamby foi planejado para funcionar como uma plataforma integrada de apoio à doação de leite humano. A proposta é reunir, em um único ambiente digital, informações educativas, localização de bancos de leite, solicitação de kits de coleta e agendamento de recolhimento domiciliar.
Pelo aplicativo, mães interessadas em doar poderão acessar conteúdos explicativos sobre o processo, entender os critérios necessários para se tornarem doadoras e encontrar os bancos de leite mais próximos de suas residências.
A plataforma também contará com uma área educativa, com artigos, dicas e vídeos informativos voltados para mulheres que ainda têm dúvidas sobre amamentação e doação.
“Durante nossas pesquisas percebemos que muitas mães querem doar, mas não sabem por onde começar. Muitas vezes faltam informações acessíveis ou até mesmo praticidade no processo de coleta”, afirma Clara. “Então pensamos em como a tecnologia poderia ajudar a diminuir essas barreiras.”
Outro eixo importante do projeto envolve o suporte ao Corpo de Bombeiros, que frequentemente atua no recolhimento domiciliar do leite humano em diversas cidades brasileiras. Segundo os estudantes, o aplicativo deve incluir ferramentas de organização logística, como geração de rotas e gerenciamento das coletas, tornando o trabalho mais eficiente.
“Atualmente estamos na terceira fase da Olimpíada, que é justamente a implementação do aplicativo”, explica a estudante. “Estamos usando as ferramentas disponibilizadas pela própria organização da competição para transformar o protótipo em uma aplicação funcional.”
Para desenvolver o projeto, os estudantes realizaram conversas com profissionais ligados a bancos de leite humano e com mães que já passaram pela experiência da doação.
As entrevistas ajudaram a equipe a compreender os desafios concretos enfrentados no cotidiano e a pensar em soluções que fossem realmente aplicáveis à realidade das usuárias.

“Essas conversas foram muito importantes porque ajudaram a gente a entender as dificuldades reais do processo”, conta Clara. “A partir desses relatos conseguimos pensar em funcionalidades mais eficientes e alinhadas às necessidades das pessoas.”
O Brasil possui uma das maiores redes de bancos de leite humano do mundo, reconhecida internacionalmente pela atuação na redução da mortalidade infantil. Mesmo assim, campanhas de conscientização frequentemente apontam dificuldades relacionadas ao acesso à informação, à logística de coleta e ao número insuficiente de doadoras.
Segundo o Ministério da Saúde, o leite materno doado é fundamental principalmente para recém-nascidos prematuros e bebês internados que não podem ser amamentados diretamente pelas mães.
Ouro nacional
A conquista na Olimpíada Brasileira de Tecnologia marcou um momento simbólico para os integrantes da Potiguaras. Além do ouro nacional, a equipe recebeu nota máxima na avaliação do projeto.
“Foi uma experiência muito gratificante. A Olimpíada durou cerca de um mês e receber esse resultado foi como ver todo o esforço da equipe sendo reconhecido”, diz Clara.
A equipe é formada pelos estudantes Amanda Lara, Caio Henrique, Clara Teodósio, Ermesson Andrade, Heitor de França e Lucas Cássio, todos alunos do 4º ano do curso técnico integrado em Informática para Internet do IFRN Natal Central, sob orientação do professor Leonardo Minora.
Segundo os integrantes, o grupo também carrega um legado construído por antigos estudantes da instituição. A Potiguaras já existia em edições anteriores da OBT e havia conquistado medalhas anteriormente.
“Os antigos integrantes nos convidaram para continuar a equipe quando concluíram o IFRN. Então ganhar o ouro agora tem um peso ainda maior porque representa a continuidade dessa trajetória”, afirma Clara.
Ela destaca ainda que a conquista ajuda a projetar o potencial da educação pública potiguar em áreas ligadas à inovação e tecnologia.
“Queremos mostrar que o Rio Grande do Norte possui jovens talentosos e capazes de desenvolver soluções com impacto social real.”
Após o resultado da olimpíada, a equipe recebeu uma carta-convite para participar da Semana EAT (Escola Avançada de Tecnologia), evento realizado em São José dos Campos, no interior de São Paulo, entre os dias 28 de julho e 1º de agosto.
A programação reúne estudantes, pesquisadores e empresas ligadas à inovação tecnológica e é considerada uma das maiores imersões do setor no país.
Durante o evento, os integrantes da Potiguaras irão apresentar o Kamby e participar de oficinas, palestras, cerimônias de premiação e visitas técnicas a instituições como o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Embraer, Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) e Base Aérea.
O encontro também reúne representantes de empresas e instituições internacionais, incluindo o MIT e a fintech CloudWalk.
“Representar o Rio Grande do Norte em um evento desse tamanho é uma honra enorme”, afirma Clara. “Além de representar o estado, estaremos representando o IFRN e mostrando o potencial dos estudantes da educação pública quando recebem oportunidades.”
Apesar da conquista nacional, a equipe enfrenta dificuldades financeiras para garantir a participação na imersão tecnológica em São Paulo.
Os estudantes iniciaram campanhas de arrecadação nas redes sociais e organizam uma rifa solidária para custear despesas como passagens, alimentação e inscrições.
“Já conseguimos arrecadar cerca de 50% do valor necessário, mas ainda precisamos de apoio para alcançar a meta total”, explica Clara.
Além de doações financeiras, a equipe também busca patrocinadores interessados em apoiar o projeto e os estudantes.
“Qualquer ajuda faz diferença. E mesmo quem não puder contribuir financeiramente pode ajudar compartilhando nossa campanha.”
A expectativa da equipe é continuar o desenvolvimento do Kamby após o encerramento da Olimpíada Brasileira de Tecnologia e transformar a plataforma em uma ferramenta efetivamente utilizada pela população.
Segundo os estudantes, o objetivo é expandir o projeto utilizando tecnologias mais modernas e ampliar o alcance social da iniciativa.
A próxima etapa da competição inclui ainda a possibilidade de uma experiência internacional no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, o que pode representar um novo salto para o projeto desenvolvido pelos estudantes potiguares.
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Fonte: saibamais.jor.br







