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Identidades Confluentes

Por Ana Paula Campos*

Agô! Chegando, peço licença para me apresentar. Chamo-me Ana Paula Campos e há pouco tempo eu era morena. Foi uma luta chegar até aqui porque, quando criança, ainda que sofresse com os impactos do racismo na minha subjetividade, não tinha discernimento para definir essas violências. Na vida adulta, descobri as teorias do feminismo negro e passei a nomear minhas vivências. Passei a me definir como uma mulher negra, mas o incômodo continuava. Recusava-me a ser apenas dor, era mais que isso. Eu não era a definição que os outros faziam de mim. Sendo assim, passei a buscar e entender de onde eu vim.

Estudar História da África foi um salto qualitativo na minha existência e afirmo: você não precisa ser negro para fazer essa trajetória. Estudar a História da África é estudar a História da humanidade. Mas, entre livros e leituras, lembrei-me da minha mãe, Edite Nogueira, dizendo: “sua avó é índia”. Quem, em sã consciência, queria ser “índio” na década de 90? Na TV, eu assistia o “índio” de Pica-Pau repetindo, de forma ameaçadora: “eu vou escalpelar você!”. Na escola, a narrativa que prevalecia era a de que “índio” era selvagem, preguiçoso e canibal. Eu não era nada disso.

Só depois que desenvolvi admiração pelo tom da minha pele e pelas minhas origens africanas decidi também conhecer a História real dos povos indígenas. Não aquela história escrita a sangue, contada nos romances brasileiros. Indígena Potyguara! Eu tinha uma história, uma cultura, uma cosmopercepção que me fazia gigante e eu tinha orgulho das minhas ancestrais como minha bisavó, Maria Veriana, descrita como “uma índia braba no sertão”.

Mas a espiritualidade não falha, e nossas ancestrais sempre encontram uma forma de nos fazer voltar para casa. Numa gira de Jurema, recebo um abraço afetuoso da cigana Diana Braz, que diz: “Você agora só quer falar de negro e índio, mas você é cigana também. Vá atrás!” Iniciei uma busca com os mais velhos da família, aqueles que já tinham me dado notícias sobre a minha avó materna, Maria Nogueira do Nascimento, indígena Potyguara. Foi então que as informações foram se revelando com certo receio, por medo ainda de perseguição. Meu avô materno, Evaristo dos Santos, era um cigano Calon. Viajou cidades e fez história com minha avó. Nascia minha mãe, fruto dessa pluralidade cultural.

Nunca falamos sobre isso, não diretamente, mas nossa casa tinha cheiro de mato e incenso. Aprendi a ler o baralho cigano e consultar minhas emoções nas cartas. Aprendi os passos da dança cigana e dançávamos sempre que estávamos tristes ou felizes. A dança era nossa manifestação mais bonita entre mãe e filha. Com minha avó, aprendi benzimentos. Sentada aos seus pés, enquanto ela, da rede, com galhos em mãos e um rezo baixinho, limpava meu corpo e curava quebranto.

Mais uma vez, segui a jornada dos livros em busca de informação sobre o povo Romani. Tive a honra de adquirir obras antigas que me conduziram a uma História de estereótipos, preconceitos, mas também de resistência. O que se romantiza nas redes sociais não condiz com a realidade, mas isso conto mais à frente.

Hoje, apesar da dor do racismo, não vivo mais em função de combatê-lo. Isso estava me adoecendo. Não me interessa como outros povos escolheram viver. Sou uma mulher de identidades confluentes, buscando viver minhas culturas de forma viva, ensinando isso para a minha filha, a cigana Sol, e levando isso para a sala de aula, onde mais e mais crianças se reconhecem como indígenas, negras e ciganas e onde crianças brancas repensam as atitudes dos seus antepassados e mudam o trançado da História de mãos dadas com outras etnias.

* Ana Paula Campos (Lua Callin)- Indígena Potyguara, Cigana Calon, mãe atípica, candomblecista e juremeira, Professora da rede pública, escritora, pesquisadora orgânica, bailarina e cartomante.

Fonte: saibamais.jor.br

Da Redação

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