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Nordeste concentra iniciativas LGBTQIAPN+ em meio à falta de políticas públicas

O avanço de iniciativas voltadas à defesa da população LGBTQIAPN+ no Nordeste tem revelado um cenário contraditório. Ao mesmo tempo em que cresce a organização de coletivos e entidades de base, persistem dificuldades estruturais ligadas à falta de financiamento, ausência de políticas públicas permanentes e aumento da violência em cidades do interior e periferias urbanas. Esse diagnóstico aparece no resultado da avaliação de projetos LGBTQIA+, divulgado nesta segunda-feira (25), pelo Fundo Brasil de Direitos Humanos.

Foram avaliadas 481 organizações de todo o Brasil. As iniciativas atuam em áreas como combate à LGBTfobia, redução de danos, acolhimento psicossocial, monitoramento da violência política contra pessoas trans, justiça climática, fortalecimento jurídico e formação de lideranças comunitárias.

Das 20 organizações pré-selecionadas em todo o país, sete estão no Nordeste. Entre elas está o Grupo Afirmativo de Mulheres Independentes do RN, do Rio Grande do Norte. Também aparecem iniciativas da Bahia, Ceará, Pernambuco, Paraíba e Piauí, reforçando a concentração de projetos nordestinos entre os grupos escolhidos.

O resultado acaba funcionando como um retrato das condições enfrentadas por entidades LGBTQIAPN+ fora dos grandes centros urbanos. Grande parte dos grupos atua em regiões onde o acesso a políticas públicas ainda é limitado e onde organizações comunitárias acumulam funções de proteção social, assistência emergencial e articulação política.

No Rio Grande do Norte, por exemplo, organizações LGBTQIAPN+ frequentemente atuam como rede informal de acolhimento para pessoas expulsas de casa, vítimas de violência ou em situação de vulnerabilidade social. Além da defesa de direitos, muitas dessas entidades também oferecem orientação jurídica, apoio psicológico, encaminhamento para serviços públicos e ações de empregabilidade.

SAIBA MAIS: Mapeamento inédito revela dados da violência contra LGBTs no RN

O Fundo Brasil afirma que os projetos escolhidos refletem justamente territórios onde a violência costuma chegar antes da presença do Estado:

“Esses grupos atuam onde a violência chega primeiro e a política pública costuma chegar por último. Apoiar essas iniciativas também significa reconhecer a capacidade política e comunitária que existe nesses territórios, especialmente fora dos grandes centros.”

Entre os grupos nordestinos pré-selecionados estão a Associação Baiana de Travestis, Transexuais e Transgêneros em Ação – Atração, o Coletivo LGBT Sem Terra do Ceará, o Coletivo Clima Queer, o Coletivo Frida, o Grupo Karatis, o Intersexo Brasil e o Movimento Espírito Lilás – MEL.

Os projetos apresentados pelas organizações nordestinas também evidenciam mudanças no perfil de atuação do movimento LGBTQIAPN+ na região. Além das demandas históricas ligadas ao combate à violência, cresce o foco em produção de dados, incidência política, comunicação comunitária e fortalecimento institucional.

SAIBA MAIS: Nordeste lidera mortes de pessoas LGBTBQIA+ e RN tem subnotificação

A diretora executiva adjunta do Fundo Brasil, Allyne Andrade, destacou que ainda existe uma carência significativa de recursos voltados a organizações de base:

“O tamanho da demanda mostra como ainda existe pouca estrutura de financiamento para organizações que sustentam respostas fundamentais nos territórios. Isso aumenta bastante a responsabilidade do processo de seleção”, afirmou.

A composição do comitê responsável pela análise das propostas também reforçou a presença nordestina. Entre os integrantes estava a psicóloga e ativista trans potiguar Mel Fernandes, que atua no fortalecimento de organizações LGBTQIAPN+.

Segundo ela, houve preocupação em priorizar grupos liderados por pessoas trans, travestis e intersexo, especialmente iniciativas localizadas no interior e em territórios com pouca estrutura financeira.

Financiamento ainda é o principal desafio

O cientista social Jean Vinicius Costa de Oliveira ressaltou que o fortalecimento dessas organizações se tornou ainda mais relevante diante do avanço da violência contra pessoas LGBTQIAPN+ em regiões desassistidas. Outro fator que chamou atenção para outro desafio identificado durante o processo: a dificuldade de acesso a financiamento por organizações lideradas por mulheres lésbicas e bissexuais.

Além da disputa por recursos, o debate promovido pelo edital também expôs uma realidade comum em cidades do interior nordestino: muitas organizações LGBTQIAPN+ acabam substituindo parcialmente o papel do Estado. Em territórios onde faltam equipamentos públicos especializados, essas entidades funcionam como espaços de acolhimento, orientação e proteção comunitária.

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Fonte: saibamais.jor.br

Gil Araújo

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