Quem entra no Sebo Magno pela primeira vez dificilmente consegue percorrer o espaço com pressa. Livros empilhados, discos de vinil organizados em estantes, moedas antigas, quadros, objetos de colecionismo e pequenas relíquias dividem cada canto do imóvel na Avenida Comandante Petit, no Centro de Parnamirim. Entre uma prateleira e outra, a reportagem ainda encontrou dois dos cinco gatos que vivem no local, observando silenciosamente a movimentação de clientes e curiosos.
O ambiente parece resistir ao tempo. Ou talvez tenha feito do próprio tempo o seu principal acervo.
À frente de tudo está Magno Arlindo, conhecido por gerações de leitores e colecionadores. Há mais de três décadas ele mantém o empreendimento que começou por necessidade e acabou se transformando em projeto de vida:
“Foi por falta de opção. Eu não consegui arrumar emprego e resolvi colocar um sebo”, conta, para lembrar o apoio que teve da mãe:
“Eu já gostava muito desse tipo de negócio e minha mãe me incentivou. Ela dizia: ‘bota isso aí, rapaz, vai dar certo’.”
Quando começou, no início da década de 1990, praticamente não existiam sebos com ponto fixo na região. A comercialização de livros usados acontecia principalmente em feiras livres. Magno decidiu apostar em um espaço permanente e viu o negócio crescer junto com a própria cidade.
O homem que negocia de tudo
Embora seja conhecido pelos livros, Magno faz questão de dizer que o sebo nunca se limitou a eles.
Ao longo dos anos, já comprou e vendeu moedas antigas, cédulas raras, cartões telefônicos, figurinhas, quadros, objetos decorativos, peças de colecionismo e uma infinidade de itens que hoje considera parte da memória material do cotidiano brasileiro.
“Tudo que é antiguidade eu trabalho. Graças a Deus eu entendo de tudo isso. Sei valores, conheço as peças. Desde papel antigo até objetos que muita gente nem imagina guardar”, afirma.
O fascínio pelo colecionismo aparece em cada frase. Não se trata apenas de comércio, mas de uma relação afetiva com os objetos e suas histórias.
“Eu gosto dessa antiguidade do colecionismo”, resume.
Atualmente, os discos de vinil representam uma das maiores demandas do público. Segundo ele, o interesse pelos LPs voltou a crescer nos últimos anos.
“Vinil está muito em alta. Eu tenho uma quantidade muito grande e o pessoal procura bastante.”
Os livros sobre a história do Rio Grande do Norte também figuram entre os mais procurados.
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Histórias que parecem ter saído dos livros
Em três décadas de balcão, Magno acumulou histórias que desafiam qualquer tentativa de organização temática. Uma delas envolve um homem que apareceu carregando o que parecia ser um violão dentro de uma capa:
“Perguntei se podia ver o que ele queria vender. Quando abriu, era um fuzil. Segundo ele, um AR-15. Todo estragado”, lembra, rindo da situação. O negócio, evidentemente, não foi adiante.
Outra história envolve um pequeno quadro que ele adquiriu sem imaginar seu valor. Durante uma feira, um restaurador especializado em obras de museu examinou a peça minuciosamente e decidiu comprá-la.
“Eu vendi por vinte reais. Depois ele me disse que aquela obra deveria estar num museu e que podia valer dez mil”, recorda.
Nem todas as experiências, porém, terminaram apenas como boas histórias para contar.
Magno já negociou até um meteorito sem saber que a comercialização desse tipo de patrimônio é proibida pela legislação brasileira. A situação chamou atenção das autoridades.
“Quase tive problema por causa disso. Eu não sabia que não podia vender essas peças. Hoje sei que são patrimônios que devem ir para museus e instituições”, lembra
Se os livros continuam presentes, o perfil dos leitores mudou.
O sebista observa que o hábito da leitura física perdeu espaço para o consumo rápido de informações nas telas. A transformação foi gradual, mas perceptível:
“As pessoas não querem mais ler direito. É muita coisa resumida na internet”, avalia.
Paradoxalmente, é a própria internet que ajuda a manter o negócio funcionando. Hoje boa parte das vendas acontece em plataformas digitais como Mercado Livre, Estante Virtual, OLX e Shopee. O trabalho é tão constante que os Correios passam diariamente para recolher encomendas.
“Tem dia que vendo três ou quatro livros pela internet. Se não fosse isso, talvez o ponto físico já tivesse fechado”, conta.
A adaptação ao comércio digital permitiu que exemplares encontrados em Parnamirim chegassem a leitores de diferentes regiões do país, ampliando o alcance de um negócio que nasceu de forma modesta.
Um sebo como patrimônio afetivo
Durante a conversa, Magno lamenta a redução de feiras culturais e eventos voltados para artistas, artesãos e colecionadores. Para ele, iniciativas desse tipo fortalecem a circulação da cultura local e ajudam a preservar memórias que dificilmente encontram espaço em grandes centros comerciais.
Mesmo assim, não demonstra frustração com o caminho que escolheu.
Quando questionado sobre sonhos ainda não realizados para o empreendimento, a resposta vem sem hesitação.
“Não. Eu gosto do meu empreendimento. Sou feliz.”
Depois de alguns segundos, completa:
“Eu adoro livro. Queria morrer dentro de livro. O que eu não queria era ficar sem entender mais de livro ou sem poder negociar com isso.”
A frase parece resumir a essência do lugar.
Em uma época marcada pela velocidade dos algoritmos, o Sebo do Magno continua funcionando como um território onde os objetos carregam passado, as histórias surgem sem aviso e o tempo parece caminhar em outro ritmo. Entre pilhas de livros, discos de vinil e gatos que circulam livremente pelos corredores, Magno segue fazendo o que começou há mais de 30 anos: preservando memórias, uma peça de cada vez.
Serviço
O Sebo Magno fica localizado na Av. Comandante Petit, 158 – Centro, Parnamirim/RN.
Instagram: @sebomagno
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Fonte: saibamais.jor.br





