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A estratégia da mentira na política contemporânea

A mentira e a distorção dos fatos fazem parte da estratégia de lideranças fascistas e populistas  que buscam influenciar a opinião pública e consolidar apoio político. Segundo o historiador Federico Fincheltein , professor da New School for Social Research, em Nova York, no livro Uma breve história das mentiras fascistas (Editora Vestígio,2020) ,a criação de uma realidade paralela por meio da manipulação da verdade é uma característica recorrente do fascismo.

O autor cita alguns exemplos, como o ditador fascista Francisco Franco na Espanha, (governou de 1939 até sua morte, em 1975), mentiroso contumaz, que entre outras mentiras afirmou que Guernica tinha sido bombardeada pelos comunistas…e muitos acreditaram, “agindo dessa forma, ele cooptava a própria noção da verdade, afirmando que as mentiras não eram suas, mas sim dos seus inimigos políticos”.

A filósofa Hannah Arendt (1906-1975), mais especificamente o livro Entre o passado e o futuro (publicado em 1961 e no Brasil em 1997 pela Editora Perspectiva), argumenta que os regimes totalitários eliminam a distinção entre fatos e narrativas ideológicas, adaptando a realidade às suas mentiras. Para ela, a destruição da verdade factual é uma ameaça direta à vida democrática. Para ela, a verdade factual não é mais autoevidente do que a opinião, e essa pode ser uma das razões pelas quais os que sustentam opiniões acham relativamente fáceis desacreditar a verdade factual com simplesmente outra opinião e que a veracidade nunca esteve entre as virtudes políticas e mentiras sempre foram encaradas como instrumentos justificáveis pelos governantes.

No livro Eichmann em Jerusalém – sobre a banalidade do mal (Editora Companhia das Letras, 2000), equipara a responsabilização de Eichmann às mentiras de uma sociedade protegida contra a realidade  na qual os autoenganos, mentiras e estupidez  haviam se tornando enraizadas em sua mentalidade.

Para ela, o fascismo era uma mentira absoluta e com efeitos políticos devastadores na sociedade “porque os fascistas deliberadamente transformam mentiras em realidade”, e mais do que isso: trata-se da própria destruição da verdade.

Ao analisar o fascismo contemporâneo em Como funciona o fascismo – a política dos ‘nós’ e ‘eles’,(Editora L&PM, 2018), Jason Stanley estabelece as diferenças entre o fascismo e o populismo, no qual  o populismo “é o fascismo adaptado à democracia” e, entre outros aspectos que compõem os tópicos de análise (o passado mítico, propaganda, anti-intelectualismo, irrealidade, hierarquia, vitimização, etc.),  afirma que o populismo é uma interpretação autoritária da democracia que remodelou o legado do fascismo pós 1945 de modo a combiná-lo com procedimentos democráticos distintos.

Mas há algo que os une: o uso sistemático da mentira. E cita, entre outros exemplos  Donald Trump (são citados outros, inclusive do Brasil),  um mitômano que “tem usado técnicas específicas de propaganda, mentindo inconsequentemente, substituindo o debate racional pela paranoia e o ressentimento e colocando em dúvida a própria realidade”.

Para ele, os movimentos fascistas “têm ‘drenado pântanos’ por gerações, como a divulgação de acusações falsas de corrupção enquanto se envolve em práticas corruptas, que é típico da política fascista, e afirma que as campanhas anticorrupção estão frequentemente no centro dos movimentos políticos fascistas.

E quando um dos seus líderes – fascistas ou populistas – mente deliberadamente, trata-se de uma das estratégias  que são usadas como propaganda política,   com técnicas de propagação de mentiras em larga escala e em um fluxo constante, de manipulação de imagens com  o objetivo de enganar a opinião pública com mensagens, mesmo sabendo que são mentirosas. Como disse o psicanalista Paulo Schiller no livro A paixão pela mentira (Editora Todavia, 2025), ao analisar a mentira na política: “A mentira é dirigida a um outro e o mentiroso tem consciência de que seus enunciados são total ou parcialmente falsos. A finalidade é enganar o outro, levá-lo a crer no que é dito, numa situação em que o mentiroso dá a entender que diz a verdade”(p.180).

E se refere à apropriação, por parcelas da sociedade, dos discursos, mentiras, violências, maniqueísmo e falsidades de líderes hipócritas que, por exemplo, exalta a família imaculada, à pregação religiosa (principalmente em períodos eleitorais, mais para enganar e fingir, do que pela fé), “numa intolerância que  pretende suprimir diferenças e transformar dissidentes em inimigos”.

Em campanhas eleitorais, essa estratégia se manifesta principalmente pela disseminação em grande volume  de fake news, deepfakes e mensagens enganosas nas redes sociais. O objetivo é manipular percepções, reforçar crenças pré-existentes e desviar a atenção para questões relevantes, como, por exemplo, o passado (e às vezes, também o presente) de um candidato, mentindo sobre seu envolvimento com falcatruas, apresentando propostas que não irão cumprir. O problema é que muitas vezes, mesmo quando as informações falsas são desmentidas, elas continuam sendo aceitas por pessoas e grupos já convencidos, fortalecendo as chamadas “bolhas” de informação (na realidade, de manipulação)  nas quais se apela  mais para às emoções do que aos fatos.

São pessoas (e grupos) que acreditam e difundem teorias conspiratórias. Na eleição presidencial de 2022, entre outros exemplos,  uma das que circularam atribuíam a hackers russos  um  esquema  para beneficiar Lula,  que circulou em formato de áudio e vídeo, assim como um vídeo que dizia que havia votos  previamente inseridos nas urnas eletrônicas, detectadas pela Polícia Federal e estariam sendo enviadas aos municípios com votos já inseridos. Foi desmentido não apenas pelo TSE, mas por agências especializadas em checagem e pela própria Polícia Federal. Mas não alterou essas crenças, que continuaram a circular.

Nesse sentido,como indaga o jurista Lênio Strek:  como ter uma opinião pública em meio à burrice e a ignorância que circulam impunemente nas redes sociais e influenciam milhões de pessoas?

Os desmentidos não surtem efeito porque são direcionadas justamente para quem acredita nelas, como mensagens disfarçadas de notícia, sem que os que recebem verifiquem sua veracidade e  assim,  o uso sistemático de mentiras é uma estratégia que consegue enganar muitas pessoas, além de fomentar ódios e discórdias em relação aos que se confrontam com eles. E mesmo que uma de suas lideranças seja flagrada em ilicitudes, com provas (áudios, troca de mensagens etc.,) seus impactos em pesquisas eleitorais são menores do que a gravidade das denúncias e provas. Ou seja, não alteram substancialmente as intenções de votos, especialmente dos que já se decidiram e veem as denúncias como perseguição política.

As redes sociais ampliam esse fenômeno ao permitir a circulação rápida e massiva de conteúdos falsos, frequentemente mais velozes do que os mecanismos de checagem. O resultado é o fortalecimento de teorias conspiratórias, a polarização política, pondo em xeque o debate democrático.

Diante desse cenário, o combate à desinformação exige não apenas educação para a cidadania e pensamento crítico, porque não bastam apenas critérios de racionalidade e objetividade, mas a necessidade de se ter  mecanismos eficazes de responsabilização. Medidas com as resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra fake news e deepfakes “de fatos sabidamente inverídicos ou gravemente descontextualizados que atinjam os processos de votação e a apuração e totalização de votos”  são fundamentais, com  sanções aos que as difundem. Trata-se de avanços importantes para proteger a integridade dos processos eleitorais e a própria democracia.

Fonte: saibamais.jor.br

Homero Costa

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