A exploração comercial do ouro em Currais Novos, no Seridó potiguar, tem movimentado a economia do município e gerado mudanças. No futuro, até o traçado da BR-226, rodovia federal que serve de ligação para Natal e outros estados, sofrerá alteração para avançar numa área de mineração. Em meio aos avanços, porém, moradores também reclamam de problemas como as explosões e poeira nas casas vizinhas.
Currais Novos já responde por 83% do valor arrecadado pelo Rio Grande do Norte via Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM), os chamados royalties da mineração. Os dados são da Agência Nacional de Mineração (ANM) e se referem de janeiro a abril de 2026.
Neste período, do total de R$ 8,3 milhões gerado em receita pelo Estado, o município seridoense é responsável por R$ 6,9 milhões — desses, R$ 6,6 milhões são só do minério do ouro. O minério de tungstênio arrecadou menos de R$ 300 mil, enquanto granito, areia e xisto vem bem atrás. Já em 2025, o RN arrecadou R$ 12,6 milhões — R$ 7,8 milhões desse valor veio só de Currais Novos, e R$ 6,9 milhões apenas do ouro.
Para o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Turismo de Currais Novos, David Narwith, os números da Compensação Financeira pela Exploração Mineral reforçam algo que Currais Novos já vivencia historicamente: a mineração continua sendo um dos grandes vetores do desenvolvimento econômico do município.
Ele afirma que os royalties da mineração permitem a Currais Novos ampliar sua capacidade de investimento em áreas essenciais, fortalecer serviços públicos e criar condições para impulsionar o desenvolvimento econômico e social.
“Nós entendemos que a mineração gera riqueza, emprego, movimenta a economia local e fortalece diversos setores, do comércio aos serviços. Porém, o nosso grande desafio é fazer com que essa riqueza tenha impacto duradouro. Ou seja, transformar uma receita que é finita, ligada à exploração mineral, em um legado permanente para a população, por meio de investimentos estruturantes, qualificação profissional, infraestrutura, diversificação econômica e melhoria da qualidade de vida”, aponta.
“Currais Novos vive um momento importante, especialmente diante das novas perspectivas para o setor mineral na região do Seridó. Precisamos aproveitar essa oportunidade com responsabilidade, planejamento e visão de longo prazo, para que os frutos desse crescimento sejam percebidos não apenas agora, mas pelas próximas gerações”, prossegue Narwith.
BR-226
As mudanças geradas pelo ouro também deverão ser sentidas em breve por quem trafega pela BR-226. Em fevereiro, a empresa canadense Aura Minerals anunciou que foi autorizada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) a realocar a rodovia federal que atravessa parte da Mina Borborema para ampliar a exploração do ouro.
Segundo a empresa, com a atualização do relatório técnico do projeto, a Aura amplia a sua base de Reservas Minerais em 82%, chegando a um total de aproximadamente 1,5 milhão de onças de ouro (cada onça corresponde a 31,1 gramas de ouro).
De acordo com a mineradora, o estudo de viabilidade indica estimativas de reservas prováveis de 40,7 milhões de toneladas de minério, com teor médio de 1,13 grama de ouro por tonelada, contendo aproximadamente 1.479 mil onças de ouro. A vida útil da mina será de 20 anos e 5 meses, com produção média estimada em mais de 20 mil kg de ouro por ano.
Procurada, a Aura Minerals informou na terça-feira (26) que o projeto da BR-226 ainda está em fase de ajustes de engenharia e, por isso, ainda não há definição sobre início ou prazo das obras.
“Assim que houver avanço, a Aura fará a comunicação oficial”, disse a empresa.
Já o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes informou que no dia 3 de março de 2026 foi assinado um Acordo de Cooperação Técnica estabelecendo as diretrizes para que a empresa Cascar Brasil Mineração Ltda. (subsidiária de Aura Minerals) elabore os projetos de engenharia e execute as obras do novo traçado para a rodovia.
Essa medida, segundo o Dnit, visa viabilizar a exploração de minérios localizados no subsolo do traçado atual, garantindo que não haja descontinuidade da operação rodoviária durante o processo.
O Dnit informou ainda que o início das obras está condicionado à aprovação dos projetos pelo Departamento, à obtenção das licenças ambientais e à conclusão das etapas de desapropriação. O acordo possui vigência de 730 dias, a contar da assinatura, podendo ser prorrogado.
“Vale destacar que o acordo é de natureza não onerosa para o DNIT, cabendo à mineradora o aporte financeiro integral — desde o projeto até a entrega — sem qualquer custo para a União”, informou a autarquia.
Minérios
Sabe-se da presença de ouro na região desde pelo menos a década de 1940. Os primeiros registros estão ligados a descobertas feitas por garimpeiros e pequenos trabalhos de prospecção realizados na região do Seridó, quando já se reconhecia o potencial aurífero associado às estruturas geológicas da Faixa Seridó, uma região marcada por intensa atividade tectônica ao longo de centenas de milhões de anos.
Já a exploração mais estruturada começou algumas décadas depois, principalmente entre os anos 1970 e 1990, explica o professor Marcos Nascimento, docente do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Na época, porém, dificuldades econômicas, oscilações do mercado e principalmente limitações relacionadas ao abastecimento de água inviabilizaram a continuidade do beneficiamento do minério, levando à paralisação por muitos anos.
“Portanto, o potencial mineral de Currais Novos não é algo novo; o que mudou foi o foco econômico da exploração. A cidade já possui uma tradição mineradora consolidada há décadas, inicialmente baseada principalmente na scheelita e em outros minerais associados da Faixa Seridó”, afirma o geólogo.
Segundo Nascimento, hoje, o ouro assume protagonismo devido à demanda global, aos investimentos tecnológicos e à confirmação de grandes reservas economicamente exploráveis.
“Isso explica por que a mineração continua influenciando diretamente o planejamento territorial e econômico local, incluindo debates sobre infraestrutura, como os estudos envolvendo o novo traçado da BR-226”, explica.
Meio ambiente
Com o avanço da mineração, uma das preocupações levantadas são os riscos ao meio ambiente. De acordo com Marcos Nascimento, a mineração moderna pode ser realizada com mecanismos de controle ambiental e social capazes de reduzir significativamente os impactos sobre a fauna, a flora e as comunidades do entorno. Isso ocorre por meio de estudos prévios, como a elaboração de EIA/RIMA (Estudos de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental), monitoramento contínuo da qualidade da água, do ar e do solo, recuperação de áreas degradadas, controle de ruídos, manejo de resíduos e programas de conservação ambiental. Além disso, a legislação brasileira exige licenciamento ambiental, compensações e acompanhamento por órgãos fiscalizadores, o que obriga as empresas a adotarem medidas técnicas para minimizar danos ambientais durante toda a vida útil da mina.
“No aspecto ecológico, uma das principais estratégias é evitar que a atividade mineral provoque perda irreversível da biodiversidade local. Para isso, são desenvolvidos programas de resgate de fauna, recomposição vegetal, monitoramento de espécies e recuperação progressiva das áreas mineradas. Em regiões semiáridas como o Seridó, esse cuidado é ainda mais importante devido à fragilidade dos ecossistemas da Caatinga”, explica o docente da UFRN.
Já em relação às populações próximas, segundo Nascimento, a mineração sustentável depende muito da chamada “licença social para operar”, ou seja, da construção de relações transparentes entre empresa e comunidade.
“Isso envolve geração de emprego e renda, diálogo constante, programas sociais, qualificação profissional e mitigação de impactos sobre o cotidiano das pessoas. Mesmo assim, é importante reconhecer que toda mineração gera algum nível de transformação ambiental e social; o grande desafio é equilibrar desenvolvimento econômico, conservação ambiental e qualidade de vida das comunidades locais. Quando há fiscalização eficiente, participação da sociedade e compromisso técnico da empresa, torna-se possível reduzir impactos e ampliar os benefícios coletivos da atividade mineral”, afirma.
Ainda assim, contudo, os problemas aparecem. Em setembro de 2025, uma audiência pública debateu os impactos da exploração do ouro em Currais Novos. Na ocasião, Magno Cortez, presidente da Associação dos Trabalhadores Rurais de São Luís, uma comunidade vizinha à mina da Aura, afirmou que as 33 casas da localidade convivem com os efeitos da mineração.
“Temos problemas hoje de poeira, explosões, muita coisa acontecendo que a comunidade não tinha antes. Hoje nós somos 24 ou 25 associados, mais de 100 pessoas na comunidade. São 33 casas, 25 anos de associação que nós temos no sítio São Luís, e a situação não tá boa. A gente tá vivendo hoje momentos que a gente nunca pensou que fosse passar”, relatou.
Celso Alves Filho, também morador da comunidade São Luís, disse ser a favor dos empregos gerados pela mineração no município, mas questionou a forma da Aura fazer o trabalho.
“Nós somos preocupados com o tão sonhado progresso que foi feito aqui com as minas anteriores, mas a maneira que esse progresso está chegando para nós está demasiado. A comunidade não aguenta”, contou.
Formação do ouro
É a inserção do município na Província Borborema, com destaque especialmente para a Faixa Seridó, que leva Currais Novos a ter tanto destaque nos minérios.
“A área passou por colisões continentais, metamorfismo, falhamentos e zonas de cisalhamento que deformaram profundamente as rochas e criaram caminhos para a circulação de fluidos hidrotermais ricos em vários metais. Essas estruturas funcionaram como verdadeiros ‘condutos geológicos’, permitindo a concentração de ouro, tungstênio e outros elementos ao longo de fraturas, veios de quartzo e zonas alteradas nas rochas”, diz o geólogo Marcos Nascimento.
A região possui uma diversidade de rochas, formada por gnaisses, micaxistos, quartzitos, mármores, granitos e pegmatitos. A interação entre fluidos magmáticos quentes e rochas carbonáticas também favoreceu a formação dos chamados escarnitos (skarns), depósitos extremamente ricos em minerais como scheelita (minério rico em W – tungstênio) e molibdenita (minério rico em Mo – molibdênio), como ocorre historicamente nas minas Brejuí e Bonfim, além de elementos como bismuto e ouro.
No caso específico do ouro, grande parte da mineralização é classificada como ouro orogênico, típico de cinturões metamórficos antigos submetidos a forte deformação tectônica.
“O calor, a pressão e os fluidos gerados durante esses eventos promoveram a dissolução e posterior precipitação do ouro em zonas estruturais favoráveis. Em outras palavras, Currais Novos reúne praticamente todos os elementos necessários para formar grandes depósitos minerais: rochas antigas, intensa deformação tectônica, circulação hidrotermal, magmatismo e uma longa evolução geológica, fatores que explicam sua liderança histórica e atual na mineração do Rio Grande do Norte”, conta o professor.
Fonte: saibamais.jor.br





