Comunidades indígenas de João Câmara, no Rio Grande do Norte, iniciaram neste primeiro quadrimestre de 2026 a colheita da primeira safra de mel produzida a partir do projeto Quintais Mendonça. A iniciativa reúne 30 famílias do Povo Mendonça Potiguara, nas comunidades Serrote de São Bento, Amarelão e Santa Terezinha, e foi criada para fortalecer a apicultura e a meliponicultura como alternativas de geração de renda.
O projeto é resultado de uma parceria entre o Sebrae-RN, o Grupo CPFL Energia e a State Grid. As atividades começaram em outubro de 2024 e incluíram capacitações técnicas, entrega de equipamentos, orientações sobre manejo, extração e comercialização, além de apoio à estruturação da produção.
Entre os participantes está José Nascimento Júnior, morador da Comunidade Indígena de Serrote de São Bento. Antes da formação, ele já convivia com abelhas jandaíra no quintal, mas não sabia como manejar a espécie nem extrair o mel. “Anos atrás, eu já tinha três abelhas jandaíra morando no meu quintal. O pessoal dizia para eu matar, e eu respondia: ‘não, deixa elas aí’, mesmo sem saber extrair o mel. Quando surgiu o projeto, no ano passado, eu me inscrevi logo, aprendi e já estou fazendo minhas primeiras vendas de mel produzido no meu quintal”, conta.
Assim como grande parte da população local, José Júnior tinha na queima da castanha sua principal atividade econômica. Com a meliponicultura, passou a contar com uma nova fonte de renda. Ele começou com 30 caixas de abelhas e pretende ampliar a estrutura. “Somente na semana passada, consegui R$ 1,2 mil de renda. Agora, quero aumentar o número de caixas para 60”, afirma.
No distrito de Santa Terezinha, o apicultor João Batista também passou a apostar na produção de mel depois da capacitação. Aos 63 anos, ele relata que a atividade abriu uma nova perspectiva econômica para a comunidade. “Aqui o povo vivia muito da castanha, mas agora surgiu essa nova fonte de renda, e estamos apostando que ela vai crescer ainda mais. Muitos já estão comprando mais caixas para ampliar a produção. Agradecemos muito aos técnicos enviados pelo Sebrae e à CPFL por acreditarem na gente. Hoje, aos 63 anos, tenho uma nova visão de renda para a vida”, relata.
Das 30 famílias atendidas, 25 trabalham com apicultura, por meio da criação de abelhas Apis, com ferrão. Outras cinco atuam na meliponicultura, com abelhas jandaíra, espécie sem ferrão. Durante 12 meses, os produtores receberam formação voltada ao manejo das colmeias, à extração do mel e às etapas necessárias para a comercialização.
O projeto beneficiou diretamente cerca de 150 pessoas e impactou aproximadamente 1.500 moradores das comunidades atendidas, por meio de ações de sustentabilidade e atividades realizadas em escolas locais. Também foram plantadas duas mil mudas de espécies frutíferas e nativas da Caatinga, com o objetivo de favorecer a preservação das abelhas e do ecossistema da região.
Segundo Nilson Dantas, gestor de Apicultura e Meliponicultura do Sebrae-RN, a expectativa é que, até o fim da safra, sejam produzidas cerca de duas toneladas de mel de abelha Apis e 200 quilos de mel de abelha jandaíra. O mel de jandaíra é considerado mais raro e tem maior valor agregado. A estimativa é que a atividade gere aproximadamente R$ 140 mil por safra nas comunidades participantes.
Além da geração de renda, a meliponicultura também está ligada ao resgate de práticas tradicionais do território Mendonça Potiguara. A criação de abelhas sem ferrão, como a jandaíra, conecta a produção à cultura indígena e à preservação da Caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro.
“A introdução dessas cadeias produtivas é uma medida sustentável, porque, além de representar uma atividade que oferece menos riscos à saúde dos produtores, também preserva o meio ambiente, gera renda e promove inclusão social”, destaca Nilson Dantas.
A estruturação da cadeia produtiva também incluiu apoio à legalização das casas de mel, incentivo ao plantio de espécies nativas e ações para aproximar os produtores do mercado. Segundo Mona Paula Nóbrega, gerente de Desenvolvimento Rural do Sebrae-RN, o projeto buscou mudar a forma como as comunidades se relacionam com a atividade.
“Eles deixaram de ser meros coletores para se tornarem produtores de mel, adotando o manejo adequado e gerando suas primeiras fontes de renda. O projeto também introduziu dois atores estratégicos, já que a comunidade ainda não possuía maturidade para o beneficiamento e a inserção no mercado”, explica.
Um desses atores foi a Boutique da Abelha, que passou a atuar junto ao projeto para aproximar os produtores do mercado. A empresa, que comercializa produtos em grandes redes varejistas e integra o selo Feito Potiguar, acompanhou a colheita e realizou o beneficiamento do mel da apicultura.
Na meliponicultura, o apoio foi prestado pelo Ybi-Ira, que auxiliou na coleta e no processamento do mel. O beneficiamento foi feito na unidade da empresa, que possui Selo de Inspeção Federal, o SIF, além do apoio à inserção do produto no mercado.
“Unir esses elos foi fundamental para que o mel chegasse ao consumidor final com valor agregado, evitando a venda informal à beira de estrada, sem tecnologia ou embalagem adequada. Essa aproximação comercial foi o grande diferencial para os produtores”, complementa Mona.
Para Rodolfo Sirol, diretor de Sustentabilidade da CPFL, a capacitação das famílias permite que a produção tenha continuidade nas comunidades.
“São 30 famílias capacitadas, todas aptas a dar continuidade e avançar nessa atividade”, afirma.
Ele avalia que a venda do mel cria uma alternativa concreta de geração de renda e inclusão social para os produtores.
“A rentabilidade da venda do mel abre uma via concreta para a geração de renda e inclusão social em um patamar superior ao que existia anteriormente. Essa perspectiva traz luz para uma realidade que antes estava esquecida. Agora, esses cidadãos reconhecem o papel de uma empresa cidadã, que compartilha valor com a sociedade. Acreditamos que não é possível existir uma empresa de sucesso sem que a comunidade também prospere”, conclui.
Com informações da Agência Sebrae-RN
Fonte: saibamais.jor.br





