Há noites que acontecem. E há noites que permanecem.
A do lançamento de “Tem poesia em dois dedos de prosa” – meu segundo livro – foi dessas que não terminaram quando as cadeiras foram recolhidas, quando as xícaras esfriaram ou quando as últimas dedicatórias foram escritas. Ficou pairando no ar, misturada ao cheiro de café, aos risos, às fotografias e aos abraços demorados que ocuparam cada canto do Mahalila Café e Livros.
Talvez porque aquela não fosse apenas uma noite de lançamento. Era uma noite de encontro. E a vida, como escrevi em um dos textos do livro, “cuida dos encontros. De todos eles.”
Sob a coordenação do clube de leitura Mulheres Lendo Mulheres, vinculado ao Mulherio das Letras Zila Mamede, mulheres chegaram carregando livros, histórias e afetos. Algumas já conheciam aqueles textos. Outras estavam prestes a conhecê-los. Mas todas pareciam compreender que a Literatura escrita por mulheres é uma forma de casa, de presença e de colo.
Havia algo de celebração e de travessia, também…
Enquanto os exemplares passavam de mão em mão, lembrei-me de um dos textos do livro: “Na palma da mão, oferta.”
E era exatamente isso que acontecia ali. Eu ofertava palavras. As leitoras ofertavam suas impressões e escuta. Os amigos ofertavam presença. O Mahalila, generoso como sempre, ofertava abrigo.
Entre um abraço e outro, eu observava as rodas de conversa se formando. Pequenos círculos de pessoas que falavam de Literatura, mas também da vida. Porque os livros acabam servindo de ponte para que as pessoas falem de si mesmas.
Em determinado momento, tornou-se impossível separar a autora da obra. Minhas páginas pareciam caminhar entre as mesas.
Estavam ali as avós-bruxas, os sertões, os gatos, os amores, os deslocamentos, as mulheres que insistem em florescer apesar de tudo, sumarentas.
Estava ali a menina que acreditava que a avó era “uma bruxa poderosamente boa”, que fazia brotar arco-íris ao descamar peixes… Ou que “fiava uma conversa sem fim” com seus bichanos… Estava ali a mulher que descobriu que “entre um livro e outro” havia “uma descoberta”. Ou que “entre uma descoberta e outra”, havia “um livro”.
E estavam ali, sobretudo, as muitas vidas tocadas pela escrita.
O mais bonito dos lançamentos literários talvez seja que eles desobedecem à lógica do mercado. Um lançamento não é apenas a chegada de um livro ao mundo. É a revelação pública de uma rede inteira de afetos que ajudou aquele livro a existir.
Quem olhasse ao redor naquela noite perceberia isso facilmente: Professoras, pesquisadoras, escritoras, leitoras, amigas antigas, amizades recentes, famílias escolhidas, ex-alunos… Todas essas pessoas reunidas em torno da celebração da palavra.
E então compreendi que aquele encontro possuía a mesma matéria dos silêncios que permitem ecoar vozes, como escrevi em um dos textos do livro: “Quando o silêncio se apoderou de mim, ouvi, finalmente, minha voz.” Como se cada uma das minhas micro escrituras sensíveis fosse uma voz que encontrasse outras vozes. Uma voz que deixa de ser só. Uma voz que se multiplica em tantas outras.
Enquanto autografava exemplares, ouvia histórias. Algumas falavam do impacto que determinados textos haviam provocado. Outras compartilhavam memórias despertadas por uma personagem, uma paisagem, um afeto ou uma ausência, por uma palavra… Um fragmento…
E foi então que percebi algo que talvez toda escritora deseje experimentar um dia; a sensação de que o livro já não me pertencia inteiramente. Cada leitora carregava consigo uma versão diferente dele. Cada leitura acrescentava sentidos que eu mesma jamais poderia prever.
Ao final da noite, quando as conversas já se espalhavam pela calçada e os abraços ganhavam a melancolia suave das despedidas, ninguém parecia ter pressa de partir. Afinal, “tem poesia em dois dedos de prosa” fiada entre quem se junta para falar de Literatura.
Talvez porque todos soubéssemos que algo importante havia acontecido. Não apenas o lançamento de um livro, mas a confirmação de que a Literatura continua cumprindo sua antiga função de reunir pessoas, de criar comunidade, de produzir encontros, de fazer com que alguém, em algum momento, encontre numa página aquilo que precisava ouvir.
E enquanto as últimas luzes do Mahalila se misturavam à noite de Natal, fiquei pensando na pergunta que tantas vezes fazem a quem escreve: “para que serve a Literatura”?
Serve para noites como essa. Serve para os abraços. Serve para os afetos. Serve para que minhas palavras encontrem morada nos outros… e, depois de encontrar, nunca mais vão embora.
Ao fim dessa noite tão linda, encosto a cabeça no travesseiro com um desejo. Um desejo que é também dedicatória para todas as pessoas que acolherem este meu novo filho entre as mãos: “Que toda poesia nos invada em cada mínimo instante”.
E que cada instante seja vivido com intensidade, abertura e encantamento, sempre propenso a eclodir em maravilhas, pois, como escreveu Novalis, “Tudo é semente” … E toda semente carrega em si a promessa de um florescimento.
Que estas páginas encontrem terra fértil em quem as ler. E que delas brotem novos afetos, novas perguntas, novas travessias e novos encontros. Afinal, talvez seja isso que a Literatura faz: semeia mundos dentro de nós.
E, quando menos esperamos, eles florescem.
Fonte: saibamais.jor.br





