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Projeto transforma memória afetiva de Ponta Negra em mobilização ambiental e cultural

No trecho de areia onde muitas crianças cresceram brincando de encontrar tatuís entre as ondas de Ponta Negra, nasce agora uma mobilização que mistura afeto, denúncia, cultura popular e educação ambiental. Idealizado pela produtora cultural e ativista Cintya Torres Laranjeira, o Projeto Tatuí será lançado no próximo dia 6 , Dia Mundial do Meio Ambiente, com uma programação que reúne limpeza de praia, rodas de conversa, apresentações culturais e debates sobre os impactos ambientais e sociais enfrentados pela principal praia urbana de Natal.

A iniciativa surge como uma tentativa de fortalecer o vínculo entre comunidade e território em um momento de intensas transformações na orla de Ponta Negra, especialmente após as obras de engorda da praia.

“O tatuí simboliza aquilo que precisa ser visto, cuidado e protegido. A praia não é um espaço vazio. Ela é viva”, afirma Cintya em entrevista à Agência Saiba Mais.

Confira a programação:

A origem do projeto também carrega uma dimensão íntima. Segundo a coordenadora, o Tatuí começou a ser desenhado após um acidente que a afastou temporariamente da rotina de trabalho. Durante o período de licença médica, ela retomou memórias da infância vivida em Ponta Negra e passou a escrever o livro infantojuvenil “Os Guardiões de Ponta Negra”, inspirado nas experiências que teve na praia. Depois, a partir de uma poesia escrita por sua filha, Heloísa Laranjeira, nasceu o cordel “Engorda pra Quem?”, que integra a programação cultural do lançamento.

“Cresci frequentando Ponta Negra, pegando tatuí na areia e vivendo espaços como a praia do Alagamar, atrás do Morro do Careca. O projeto nasce dessa relação afetiva com o território, mas também da vontade de transformar memória em ação”, explica.

A proposta do projeto dialoga diretamente com o cenário atual da praia. Nos últimos meses, moradores, comerciantes, pescadores e frequentadores vêm relatando problemas ligados à drenagem da engorda, presença de águas poluídas, alterações na faixa de areia e impactos sobre atividades tradicionais da comunidade.

Para Cintya, o Dia Mundial do Meio Ambiente foi escolhido justamente para ampliar esse debate.

“A praia enfrenta impactos relacionados à obra da engorda, como problemas de drenagem, acúmulo de águas das chuvas, poluição e alterações importantes na dinâmica costeira. Isso mostra que o cuidado com Ponta Negra precisa ser permanente”, afirma.

Segundo ela, o projeto pretende incentivar não apenas ações de limpeza, mas também participação popular nas discussões sobre o futuro da praia.

“A população pode ajudar não apenas evitando o descarte irregular de resíduos, mas também participando das discussões sobre o futuro da praia e cobrando soluções sustentáveis para o território”, diz.

A programação do lançamento será dividida entre manhã e noite. Pela manhã, no letreiro de Ponta Negra, haverá mutirão de limpeza da praia, alongamento, distribuição de mudas e rodas de conversa. À noite, a programação segue na Vila de Ponta Negra, com apresentações culturais, participação de grupos tradicionais e a apresentação do cordel “Engorda pra Quem?”.

A iniciativa também busca aproximar pautas ambientais da cultura popular da Vila de Ponta Negra. O projeto conta com apoio de coletivos, grupos culturais, lideranças comunitárias e organizações locais, como o Conselho Comunitário de Ponta Negra, Rendeiras da Vila, Protagonistas da Paz e grupos de coco de roda.

“Cuidar de Ponta Negra vai além do meio ambiente. É reconhecer o território como espaço de memória, cultura, trabalho e pertencimento”, afirma a coordenadora.

Ela destaca ainda a inspiração no legado de Joca Lima, da Tapiocaria da Vó, figura conhecida da comunidade.

“Queremos manter viva a cultura popular da comunidade usando o cordel, a música e as rodas de conversa para aproximar as pessoas do debate ambiental.”

O cordel apresentado durante o evento deve funcionar como um dos principais elementos de provocação política e cultural do projeto. A obra questiona os impactos da engorda e discute quem participa das decisões sobre o território.

“Ponta Negra não pode ser vista apenas como cartão-postal. Ela é território de vida, memória, cultura e trabalho”, defende Cintya.

Apesar de começar em Ponta Negra, o Projeto Tatuí pretende ampliar sua atuação para outras praias do litoral potiguar. A ideia é realizar ações mensais em locais como Cotovelo, Tabatinga, Pipa e Baía Formosa, além de desenvolver atividades em escolas e projetos comunitários.

Entre os próximos passos também está a publicação do livro “Os Guardiões de Ponta Negra”, prevista para ainda este ano, como forma de aproximar crianças e adolescentes das discussões sobre preservação ambiental.

“O Projeto Tatuí quer atuar em rede, realizando suas próprias ações e apoiando escolas, coletivos, grupos culturais e movimentos que já cuidam dos seus territórios”, afirma a idealizadora.

SAIBA MAIS:
Comunidade da Vila de Ponta Negra promove ato por paz, cultura e enfrentamento à violência



Fonte: saibamais.jor.br

Gil Araújo

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