Após aprovação na Câmara dos Deputados, o debate sobre o fim da escala 6×1 segue movimentando os setores da economia e está permanentemente na pauta dos veículos de comunicação. Como é de se esperar, na bancada da 96 FM prevalece o ponto de vista patronal. A postura se repetiu no dia 29 de maio quando o “Jornal da 6” recebeu Geraldo Paiva, dono da Rede Mais e presidente do SINCOVAGA/RN (Sindicato do Comércio Varejista de Gêneros Alimentícios do Estado do Rio Grande do Norte) para tratar sobre a mudança da jornada de trabalho.
É preciso destacar que a Rede Mais é anunciante da rádio, ou seja, o entrevistado é cliente da 96 FM. Portanto, já era de se esperar que os entrevistadores não fizessem qualquer questionamento que contrariasse o ponto do vista do empresário. A situação exemplifica bem como funciona a lógica do jornalismo empresarial, onde um veículo atua para defender os interesses privados, sem o compromisso da isenção jornalística. Portanto, a informação prestada deverá estar alinhada aos interesses comerciais dos envolvidos.
Na entrevista, Geraldo Paiva expôs o posicionamento dos donos de supermercado contra o fim da escala 6×1 e apresentou alguns argumentos frágeis, além de contar com a omissão dos jornalistas da bancada que não questionaram algumas contradições na fala do empresário.
O presidente do SINCOVAGA/RN afirmou que, para manter as condições atuais de atendimento com a jornada 5×2, será necessário o aumento de 15% no quadro de funcionários, o que vai onerar os custos e provocar o aumento dos preços dos produtos. Contudo, ao ser indagado se há intenção de demitir colaboradores, o empresário confirmou a hipótese, argumentando que as empresas pretendem elevar a quantidade de equipamentos de autoatendimento, os chamados self-checkout. Os jornalistas da bancada não o questionaram se o aumento da automatização do serviço de caixa não seria, de fato, o elemento de equilíbrio para garantir a nova jornada aos empregados sem o aumento de custos para os lojistas.
A realidade é que, muito antes do debate sobre o fim da escala 6×1, os supermercados já estavam implementando aparelhos de self-checkout com clara intenção de diminuir os postos de trabalho. Segundo Geraldo Paiva, as máquinas não geram hora extra, não têm 13º salário, não faltam o serviço e não apresentam atestado médico. É evidente que a automatização não será usada como elemento favorável a jornada 5×2, mas sim como um mecanismo para aumentar os lucros.
Ainda sobre o uso de self-checkout, sem qualquer objeção da bancada, o dono da Rede Mais faz um paralelo do uso do equipamento com os bancos, onde houve uma grande migração dos clientes dos meios físicos para os canais de autoatendimento, o que gerou uma redução no número de bancários atuando nas agências. O paralelo se mostra equivocado porque os bancos oferecem serviços financeiros e os supermercados vendem mercadorias físicas, ou seja, os consumidores não vão deixar de frequentar as lojas.
O presidente da entidade patronal também reclamou dos jovens que estão no mercado de trabalho. Na sua visão, a “nova geração” não tem comprometimento, muitas vezes faltam e deixam o trabalho por qualquer motivo. Sem apresentar dados concretos, afirmou que a juventude sai do emprego quando completa um ano de vínculo para receber seguro-desemprego, retornando depois para o mesmo ramo por saber que existem vagas disponíveis. De acordo com o entrevistado, a situação irá piorar quando for implementada a escala 5×2, mas não foram apresentados argumentos para sustentar a conclusão.
Na oportunidade, Geraldo Paiva relatou o problema recorrente de falta de mão de obra para trabalhar em supermercados, principalmente em outras regiões do Brasil como Sul e Centro-oeste. Especificamente no Mato Grosso, foi citado que existem mais de 1.000 vagas em aberto, chegando a existir oportunidade para operador de caixa com salário de R$ 3.500,00. Contudo, em qualquer página de empregos sul mato-grossense, é possível enxergar vagas no ramo supermercadista, mas não há qualquer posto de trabalho com a remuneração próxima à que foi informada pelo varejista.
Diante da recorrência de vagas no setor supermercadista, caberia aos jornalistas provocar o representante do SINCOVAGA sobre a responsabilidade dos empresários pelo quadro atual de escassez de colaboradores dispostos a trabalhar 44 horas semanais na escala 6×1 em suas lojas. O que os donos dos estabelecimentos estão fazendo para tornar o segmento atrativo para os jovens e outros públicos? Falta uma reflexão dos empreendedor sobre o impacto direto da escala de trabalho em relação ao número de postos de trabalho disponíveis. Será que o esquema 5×2 não diminuiria a recusa das pessoas em trabalhar nos estabelecimentos? A grande rejeição pelas vagas reside no trabalhador ou nas condições oferecidas pelo segmento?
O apresentador da 96 FM levantou a questão de que os defensores da escala 5×2 sustentam que a nova jornada vai melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores e pediu o comentário do empresário. Geraldo Paiva classificou a afirmação como um argumento falho. Em sua visão, o cidadão não busca “boa vida”, mas sim salário e complemento de renda. Portanto, o funcionário prefere ganhar R$ 2.200,00 trabalhando na escala 6×1 do que receber um salário mínimo na jornada 5×2.
No encerramento de sua participação, o dono da Rede Mais relatou que, na busca pela melhora de vida, colaboradores trabalham como motoristas de aplicativo ou atuam em outros supermercados durante as folgas. O gestor argumenta com uma lógica frágil que a escala 5×2 prejudicaria o contratado. Ele critica o fato do funcionário buscar renda extra fora de sua loja, enquanto mantém a jornada 6×1. Contudo, ao condenar o trabalho na folga e, simultaneamente, opor-se à escala 5×2, o empresário revela o real interesse patronal: se o subalterno possui disponibilidade para exercer funções em outros locais, o patrão entende que essa força de trabalho poderia estar integralmente à disposição de seu próprio supermercado, em vez de ser utilizada em atividades externas.
Em contraponto a ideia patronal, um ouvinte comentou no chat da rádio: “Eu trabalho na minha folga, mas é opção minha. O trabalhador vai no dia que quer, no dia que não quer não vai. Por isso a opção de folgar os dois dias”.
A linha editorial da 96 FM se ajusta aos posicionamentos do senador Rogério Marinho, relator da reforma trabalhista, que repete a tese quase fictícia de que qualquer empregado pode negociar livremente com o patrão. A bancada poderia ter questionado se os funcionários da Rede Mais possuem, de fato, a liberdade de negociação defendida pelo parlamentar. A ausência de contraponto real no programa comprova o papel da rádio como porta-voz de interesses patronais e confirma a lógica descrita no início do texto: como a empresa do entrevistado é cliente da emissora, o jornalismo é moldado pelo interesse comercial. Nessa relação, o ponto de vista do trabalhador é plenamente ignorado.
Fonte: saibamais.jor.br





